Sabemos que os primeiros anos de vida são determinantes. Nessa fase, são construídas as bases fundamentais para a saúde, a aprendizagem e o bem-estar. Também sabemos que a pobreza e as desigualdades podem marcar profundamente essas experiências. O que é difícil de explicar é por que, mesmo com essas evidências, continuamos tratando o investimento nos primeiros anos como uma prioridade que pode esperar.
Falar sobre recursos para meninas e meninos pequenos não deveria ser, em primeiro lugar, uma discussão sobre rentabilidade. Seus direitos não dependem do quanto eles poderão retribuir à sociedade no futuro. Saúde, nutrição, educação, proteção e cuidados são condições indispensáveis para que possam crescer e se desenvolver plenamente. Garantir essas condições exige políticas públicas capazes de transformar os direitos reconhecidos em oportunidades reais para cada menina e cada menino.
A realidade da nossa região mostra o quanto ainda falta para alcançar esse objetivo. Na América Latina e no Caribe, 43,7% das meninas e meninos de 0 a 8 anos viviam em situação de pobreza em 2022, quase 15 pontos percentuais acima da população em geral. Por trás desse número, há uma desigualdade que começa muito cedo e que afeta de maneira particular aqueles que vivem em áreas rurais, pertencem a povos indígenas ou comunidades afrodescendentes, vivem com alguma deficiência ou se encontram em situação de mobilidade humana.
Diante desse cenário, falar em investimento não pode se resumir a pedir mais dinheiro. Também precisamos nos perguntar quanto é investido, em que os recursos são utilizados, como são distribuídos e quais resultados geram. Pois um orçamento não é apenas uma soma de números: é uma expressão concreta das prioridades de uma sociedade. O que decidimos financiar — e a maneira como o fazemos — revela a quem colocamos no centro de nossas decisões e que futuro estamos dispostos a construir.
Por isso, se aceitamos que todas as meninas e todos os meninos têm os mesmos direitos, devemos nos perguntar por que as condições em que nascem e crescem continuam a ter tanto peso sobre suas possibilidades de exercê-los. O que isso diz sobre nossas prioridades, o fato de milhões de meninas e meninos começarem sua vida em condições de pobreza e de ainda termos que insistir que seus direitos exigem recursos orçamentários?
A resposta não pode se limitar a reconhecer a importância dos primeiros anos de vida. Precisamos que essa convicção se traduza em decisões que contem com financiamento, sejam sustentáveis e orientadas para resultados. A quatro anos do prazo da Agenda 2030, fortalecer o financiamento destinado a essa etapa é também uma condição para avançar nas metas relacionadas aos cuidados, ao desenvolvimento, à educação, à saúde, à nutrição e à proteção dessas crianças.
É justamente por isso que as discussões que ocorrerão no México em novembro são importantes. De 10 a 12 de novembro será realizada a 1ª Cúpula Latino-Americana de Investimento na Primeira Infância, que reunirá governos, organismos multilaterais, bancos de desenvolvimento, sociedade civil, academia e setor privado para impulsionar um investimento suficiente, sustentável e equitativo nos primeiros anos de vida. Prevê-se que o encontro resulte em uma Declaração Regional sobre Financiamento para a Primeira Infância e em compromissos nacionais de investimento que contribuam para a Cúpula Global de 2027.
A Cúpula pode ser um ponto de partida para passar das declarações às decisões. Mas o desafio vai muito além de um encontro: trata-se de decidir, como sociedade, qual é o lugar que a primeira infância ocupa em nossas prioridades. Pois garantir os direitos das meninas e dos meninos não pode depender da disponibilidade de recursos após atender a todas as outras necessidades. Se queremos construir sociedades mais justas, o momento de priorizar seus direitos não é amanhã. É desde o início de suas vidas.